terça-feira, 21 de agosto de 2012

Mitt Romney coloca a falência do Estado Assistencialista no centro da campanha


Pierre-Yves Dugua

Mitt Romney é de direita. Ele fará uma campanha de direita. Portanto, ele é com certeza um homem perigoso, se entendi bem o New York Times. No entanto, a América é um país onde não é proibido ser liberal [1] e capitalista.

Mitt Romney

Seu companheiro de chapa, Paul Ryan, compartilha de suas convicções liberais. Mesmo que as idéias deste último para reduzir a dívida pública não sejam totalmente assumidas pelo candidato republicano à presidência.

Assim, a América terá provavelmente uma verdadeira campanha eleitoral. Ao contrário do que acontece em certo país que conhecemos bem [2], os verdadeiros problemas será explicitamente apresentados: esta crise não é conjuntural. Ela é estrutural. Para resolvê-la é preciso reinventar o sistema.

Fingir acreditar que o Estado Assistencialista pode ser corrigido é, talvez, uma boa idéia para ser reeleito. No entanto, este não é o correto diagnóstico sobre a situação atual.

Depois de mais de uma década o endividamento descontrolado dos Estados Unidos não produz mais os resultados esperados. A mediocridade do crescimento, a insuficiência da arrecadação, a impotência da política monetária, a dependência por gerações e gerações de programas sociais que já não podem ser financiados, o fracasso da regulamentação bancária para proteger os contribuintes dos riscos das decisões tomadas por uma minoria de especuladores, entre vários outros problemas reais citados pelos republicanos. E estes problemas incomodam. Soluções efetivas são duras. Impopulares. Incompatíveis, segundo os institutos de pesquisas, com uma vitória eleitoral em novembro.

Barack Obama, ao contrário, tem feito até agora campanha denegrindo seu adversário. Conseqüentemente, ele evitou esses problemas. Ele fala em defender a classe média. Ele pensa que pode salvar o Estado assistencialista da falência taxando os ricos. Questionado sobre a duplicação da dívida pública depois de sua chegada à Casa Branca, ele põe a culpa nos republicanos – os mesmos que não votaram seu plano de ampliar o teto da dívida...

O objetivo democrata: tornar Rommey odioso, porque ele é rico. Porque ele teve sucesso reestruturando empresas. Porque ele não acredita que o Estado seja o real criador das riquezas. Porque ele não acha que tirar dos ricos para dar aos sindicatos e aos pobres reduzirá as desigualdades. Porque ele não acha que tirar dos jovens para dar aos menos jovens seja uma política responsável e progressista. Barack Obama acredita que, para salvar o Estado assistencialista, é preciso mais Estado assistencialista, ou seja, mais impostos, mais transferências sociais, mais regulamentação. Seu modelo, mesmo que ele não assuma, é a Europa Social-Democrata. Eis porque os franceses adoram Barack Obama. Eis porque eles consideram Mitt Romney um mórmon terrível.

Romney é o “super-homem”? Com certeza não. Ele comete suas gafes? Às vezes, comete. Ele tem tendência de mudar de opinião quando muda a plateia? Se pode desconfiar. Os republicanos poderiam ter encontrado um candidato melhor? Claro que sim. Mas Mitt Romney também provou que ele pode governar um estado muito democrata, Massachusetts, de maneira honrada. Precisamente porque ele veio do mundo das finanças, ele é pragmático.

Gostemos ou não das soluções propostas por Paul Ryan, todos reconhecem que o representante de Wisconsin difere do conjunto da Câmara dos deputados. Ele não se contenta apenas com slogans e generalidades visando bajular essa ou aquela categoria de eleitores. Enquanto que outros eleitos pelo partido republicano e pelo “Tea Party” prometem “reduzir despesas públicas”, mas evitam entrar em detalhes, Paul Ryan ousa falar do que incomoda.

Paul Ryan

Lúcido, ele parte do princípio que a crise atual não é conjuntural, mas estrutural. Ele afirma que a redução de endividamento público é imperativa. Obama quer sempre adiar para amanhã. Paul Ryan ousa dizer que por razões demográficas e orçamentárias é preciso desfazer os sistemas sociais nascidos do “New Deal” de Franklin Roosevelt e da “New Society” [3] de Lyndon Johnson.

Ele, portanto, propõe uma privatização parcial do muito popular seguro de saúde federal (Medicare), que cobre 48 milhões de americanos aposentados. Ele quer dar aos estados a liberdade de administrar como eles acharem melhor a ajuda aos pobres e desfavorecidos (Medicaid). Ele quer eliminação de numerosas e populares deduções fiscais em troca de um declínio acentuado nas taxas marginais do imposto de renda. Na área da fiscalização das empresas, ele defende a mesma abordagem: reduzir o imposto sobre os lucros, mas remover as isenções que fazem o código tributário ser incompreensível e contra produtivo. Todas estas propostas fazem dele tanto um alvo fácil para Barack Obama quanto um homem indispensável para um republicano que está buscando a Casa Branca.

Pierre-Yves Dugua é correspondente de economia nos Estados Unidos para o jornal diário Le Figaro.
Tradução: Jorge Nobre, estudante de Letras - Tradução Francês da UnB

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Notas do Tradutor

[1] Nesse caso, a palavra “liberal” tem o sentido de ser pró livre-mercado e a favor da redução do tamanho do Estado, ou seja, tem o sentido que tanto franceses quanto brasileiros dão a palavra, que em muitos casos é o contrário do sentido que o termo “liberal” tem nos Estados Unidos.
[2] Pierre-Yves Dugua está falando da França, mas também poderia estar falando de outro país que conhecemos muito bem...
[3] Trata-se de um provável lapso do autor, que deve estar querendo dizer “Great Society”.

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