quinta-feira, 31 de maio de 2012

Os filhos do Marxismo

Há pouco tempo, recebi comentários de um certo Marcus Valerio XR (Xavier Reis), mestre em Filosofia pela Universidade de Brasília. Seus comentários apontavam uma série de “incongruências” em meus textos, e, para elucidá-los e refutá-los efetivamente, citava textos de sua própria autoria. Como alguém que aprecia um debate sério e bem fundamentado, achei por bem ler os textos indicados pelo Sr. XR e, assim, verificar em que medida eu estava equivocado. O presente texto é bem longo, de modo que recomendo paciência àqueles que queiram compreender a questão.


O texto Comunismo X Nazismo X Fascismo X Socialismo procura mostrar que Socialismo, Comunismo, Fascismo e Nazismo são ideologias que, apesar de algumas semelhanças, são diametralmente distintas. De acordo com o Sr. XR:
Trivial que militantes de certas posições ainda defensáveis acusem as posições adversárias de se relacionarem a posições já indefensáveis, por isso, esquerdistas e direitistas tem trocado acusações que visam confundir a posição ideológica adversária com posições quase consensualmente rejeitadas, no caso, o Nazismo e o Fascismo, que tem sido frequentemente associados tanto ao Capitalismo quanto ao Socialismo e Comunismo, bem como a governos que muitas vezes são praticamente sua antítese.

[...]

Penso que se apelarmos para suas definições tradicionais, quer sejam tiradas de dicionários léxicos, políticos ou filosóficos, quer sejam pelas definições de seus mais conhecidos ideólogos ou opositores, praticamente não há discussão, visto que SOCIALISMO  é classicamente definido como um sistema onde os meios de produção são desapropriados e gradualmente revertidos ao controle estatal, e consequentemente público, num processo de transição que levaria ao COMUNISMO, onde ocorreria a abolição do estado, num sistema social onde todas as decisões seriam tomadas coletivamente pela população, sem intermediários. Situação essa que, no entanto, jamais ocorreu.

Por outro lado, tanto NAZISMO quanto FASCISMO são ideologias que visam o exato oposto, isso é, o engrandecimento do Estado, transformando praticamente em objeto de culto e subordinando toda a sociedade à uma auto idolatria por meio do símbolo maior da auto imagem nacional. [sic]
Creio que o Sr. XR não tenha tido a oportunidade de analisar pormenorizadamente os meandros das doutrinas socialista, comunista, nazista e fascista. A despeito de suas diferenças pontuais – que certamente existem, pois, do contrário, essas quatro ideologias seriam uma única –, a raiz de todos esses ideários é a mesma: o ódio coletivista. Para o Socialismo e o Comunismo, o sentimento que orienta as forças revolucionárias e o próprio Estado é o sentimento de classe (proletários); para o Fascismo, tal sentimento é o sentimento nacional (italianos); para o Nazismo, tal sentimento é o sentimento racial (arianos). O ódio classista, o ódio nacional e o ódio racial possuem exatamente as mesmas estruturas, os mesmos meandros, a mesma lógica: a redução das singularidades e das particularidades individuais a traços coletivistas que transformam os indivíduos em uma massa amorfa determinada por esses mesmos traços. Assim como há um ódio coletivista, há um determinismo coletivista. A diferença entre essas ideologias é o objeto ao qual se atêm.

É necessário também dizer que o termo Capitalismo não se refere a uma ideologia, ao contrário de Socialismo, Comunismo, Nazismo e Fascismo. Capitalismo é um termo frequentemente utilizado para se referir ao atual estágio de desenvolvimento do sistema econômico. Transformar o Capitalismo em uma ideologia seria o mesmo que falar na existência de uma ideologia feudal, o que seria um tremendo despropósito.

Continuemos:
Karl Marx não acreditava em revoluções armadas, ele teorizou que as sociedades Capitalistas, quando estivessem nos limites de seu desenvolvimento global, seriam gradualmente convertidas em sociedades Socialistas, devido as forças históricas impessoais da luta de classes, de modo que podia-se esperar no máximo escaramuças locais. [sic]
Não sei em que escritos de Marx o Sr. XR baseia suas afirmações, uma vez que não há referência disso em seu texto, mas creio que ele não teve a oportunidade de conhecer profundamente a obra de Marx. Eis algumas defesas de Marx em suas obras (grifos nossos):
Entretanto, o antagonismo entre o proletariado e a burguesia é uma luta de uma classe contra outra, luta que, levada à sua expressão mais alta, é uma revolução total. [...] Não se diga que o movimento social exclui o movimento político. Não há, jamais, movimento político que não seja, ao mesmo tempo, social.

Somente numa ordem de coisas em que não existam mais classes e antagonismos entre classes as evoluções sociais deixarão de ser revoluções políticas. Até lá, às vésperas de cada reorganização geral da sociedade, a última palavra da ciência social será sempre: “O combate ou a morte: a luta sanguinária ou nada. É assim que a questão está irresistivelmente posta”. (Karl Marx, “Luta de Classes e Luta Política”, 1847)

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O movimento proletário é o movimento autônomo da maioria imensa no interesse da maioria imensa. O proletariado, a camada mais baixa da sociedade atual, não pode elevar-se, não pode endireitar-se, sem fazer ir pelos ares toda a superstrutura [Überbau] das camadas que formam a sociedade oficial. Pela forma, embora não pelo conteúdo, a luta do proletariado contra a burguesia começa por ser uma luta nacional. O proletariado de cada um dos países tem naturalmente de começar por resolver os problemas com a sua própria burguesia.

Ao traçarmos as fases mais gerais do desenvolvimento do proletariado, seguimos de perto a guerra civil mais ou menos oculta no seio da sociedade existente até ao ponto em que rebenta numa revolução aberta e o proletariado, pelo derrube violento da burguesia, funda a sua dominação.

[...]

Em sentido próprio, o poder político é o poder organizado de uma classe para a opressão de uma outra. Se o proletariado na luta contra a burguesia necessariamente se unifica em classe, por uma revolução se faz classe dominante e como classe dominante suprime violentamente as velhas relações de produção, então suprime juntamente com estas relações de produção as condições de existência da oposição de classes, as classes em geral, e, com isto, a sua própria dominação como classe.

[...]

Os comunistas rejeitam dissimular as suas perspectivas e propósitos. Declaram abertamente que os seus fins só podem ser alcançados pelo derrube violento de toda a ordem social até aqui. Podem as classes dominantes tremer ante uma revolução comunista! (Karl Marx & Friedrich Engels, “O Manifesto Comunista”, 1848)
Podemos adicionar também algumas considerações de Friedrich Engels, que, junto com Marx, desenvolveu o que veio a se chamar Socialismo Científico (grifos nossos):
Os comunistas sabem muitíssimo bem que todas as conspirações são não apenas inúteis, como mesmo prejudiciais. Eles sabem muitíssimo bem que as revoluções não são feitas propositada nem arbitrariamente, mas que, em qualquer tempo e em qualquer lugar, elas foram a consequência necessária de circunstâncias inteiramente independentes da vontade e da direcção deste ou daquele partido e de classes inteiras. Mas eles também vêem que o desenvolvimento do proletariado em quase todos os países civilizados é violentamente reprimido e que, deste modo, os adversários dos comunistas estão a contribuir com toda a força para uma revolução. Acabando assim o proletariado oprimido por ser empurrado para uma revolução, nós, os comunistas, defenderemos nos actos, tão bem como agora com as palavras, a causa dos proletários. (Friedrich Engels, “Princípios Básicos do Comunismo”, 1847)

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Uma revolução é certamente a coisa mais autoritária que se possa imaginar; é o ato pelo qual uma parte da população impõe a sua vontade à outra por meio das espingardas, das baionetas e dos canhões, meios autoritários como poucos; e o partido vitorioso, se não quer ser combatido em vão, deve manter o seu poder pelo medo que as suas armas inspiram aos reacionários. A Comuna de Paris teria durado um dia que fosse se não se servisse dessa autoridade do povo armado face aos burgueses? Não será verdade que, pelo contrário, devemos lamentar que não se tenha servido dela suficientemente? Assim, das duas uma: ou os anti-autoritários não sabem o que dizem, e, nesse caso, só semeiam a confusão; ou, sabem-no, e, nesse caso, atraiçoam o movimento do proletariado. Tanto num caso como noutro, servem à reação. (Friedrich Engels, “Sobre a Autoridade”, 1873)
Friedrich Engels e Karl Marx

As evidências estão aí, visíveis a qualquer um. Não é verdade que Marx pensava que “revolução não seria uma guerra, mas movimentos proletários como greves, paralisações e apropriações promovidas pelos trabalhadores”: a sublevação violenta da classe proletária, com a conquista do poder e a perseguição à burguesia, era o que se almejava com uma revolução socialista.

Além do ódio coletivista, há outro ponto que une o Socialismo, o Comunismo, o Nazismo e o Fascismo: o Marxismo. No capítulo 2 do opúsculo “O Manifesto Comunista”, Marx e Engels listam as medidas a serem tomadas pela ditadura do proletariado:
1. Expropriação da propriedade fundiária e emprego das rendas fundiárias para despesas do Estado.

2. Pesado imposto progressivo.

3. Abolição do direito de herança.

4. Confiscação da propriedade de todos os emigrantes e rebeldes.

5. Centralização do crédito nas mãos do Estado, através de um banco nacional com capital de Estado e monopólio exclusivo.

6. Centralização do sistema de transportes nas mãos do Estado.

7. Multiplicação das fábricas nacionais, dos instrumentos de produção, arroteamento e melhoramento dos terrenos de acordo com um plano comunitário.

8. Obrigatoriedade do trabalho para todos, instituição de exércitos industriais, em especial para a agricultura.

9. Unificação da exploração da agricultura e da indústria, atuação com vista à eliminação gradual da diferença entre cidade e campo.

10. Educação pública e gratuita de todas as crianças. Eliminação do trabalho das crianças nas fábricas na sua forma hodierna. Unificação da educação com a produção material, etc.
Comparemos essas medidas com o Programa do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, de 24 de fevereiro de 1920:
1. Nós exigimos a união de todos os alemães numa Grande Alemanha com base no princípio da auto-determinação de todos os povos.

2. Nós exigimos que o povo alemão tenha direitos iguais àqueles de outras nações; e que os Tratados de Paz de Versalhes e St. Germain sejam abolidas.

3. Nós exigimos terra e território (colônias) para a manutenção do nosso povo e o assentamento de nossa população excedente.

4. Somente aqueles que são nossos compatriotas podem se tornar cidadãos. Somente aqueles que têm sangue alemão, independente do credo, podem ser nossos compatriotas. Por esta razão, nenhum judeu pode ser um compatriota.

5. Aqueles que não são cidadãos devem viver na Alemanha como estrangeiros e devem estar sujeitos à lei de estrangeiros.

6. O direito de escolher o governo e determinar as leis do Estado pertencerá somente aos cidadãos. Nós portanto exigimos que nenhuma repartição pública, de qualquer natureza, seja no governo central, na província, ou na municipalidade, seja ocupada por qualquer um que não seja um cidadão.

Nós combatemos a administração parlamentar corrupta pela qual homens são indicados para vagas por favor do partido, não importando caráter e aptidão.

7. Nós exigimos que o Estado especialmente se encarregará de garantir que todos os cidadãos tenham a possibilidade de viver decentemente e recebam um sustento. Se não puder ser possível alimentar toda a população, então os estrangeiros (não-cidadãos) devem ser expulsos do Reich.

8. Qualquer imigração adicional de não-alemães deve ser prevenida. Nós exigimos que todos os não-alemães que entraram no país desde 2 de Agosto de 1914 sejam forçados a deixar o Reich imediatamente.

9. Todos os cidadãos devem possuir iguais direitos e deveres.

10. O primeiro dever de todo cidadão deve ser trabalhar mental ou fisicamente. Nenhum indivíduo fará qualquer trabalho que atente contra o interesse da comunidade para o benefício de todos.

Portanto, nós exigimos:

11. Que toda renda não merecida, e toda renda que não venha de trabalho, seja abolida.

12. Como cada guerra impõe sobre o povo sacrifícios em sangue e bens valiosos, todo lucro pessoal proveniente da guerra deve ser tratado como traição ao povo. Nós portanto exigimos o confisco total de todos os lucros de guerra.

13. Nós exigimos a nacionalização de todos os grupos investidores.

14. Nós exigimos participação dos lucros em grandes indústrias.

15. Nós exigimos um aumento generoso em pensões para idade avançada.

16. Nós exigimos a criação e manutenção de uma classe média sadia, a imediata socialização de grandes depósitos que serão vendidos a baixo custo para pequenos varejistas, e a consideração mais forte deve ser dada para assegurar que pequenos vendedores entreguem os suprimentos necessários ao Estado, às províncias e municipalidades.

17. Nós exigimos uma reforma agrária de acordo com nossas necessidades nacionais, e a oficialização de uma lei para expropriar os proprietários sem compensação de quaisquer terras necessárias para propósito comum. A abolição de arrendamentos de terra, e a proibição de toda especulação na terra.

18. Nós exigimos que uma guerra dura seja travada contra aqueles que trabalham para o prejuízo do bem-estar comum. Traidores, usurários, aproveitadores, etc., serão punidos com morte, independente de credo ou raça.

19. Nós exigimos que a lei romana, que serve a um arranjo materialista do mundo, seja substituída pela lei comum alemã.

20. A fim de tornar possível para todos os alemães capazes e industriosos obter educação mais elevada, e assim a oportunidade de alcançar posições de liderança, o Estado deve assumir a responsabilidade de organizar completamente todo o sistema cultural do povo. Os currículos de todos os estabelecimentos educacionais serão adaptados para a vida prática. A concepção da idéia do Estado (ciência de cidadania) deve ser ensinada nas escolas desde o início. Nós exigimos que crianças especialmente talentosas de pais pobres, quaisquer que sejam suas classes sociais ou ocupações, sejam educadas às custas do Estado.

21. O Estado tem o dever de ajudar a elevar o padrão de saúde nacional fornecendo centros de bem-estar maternal, proibindo trabalho infantil, aumentando aptidão física através da introdução de jogos compulsórios e ginástica, e pelo maior encorajamento possível de associações relacionadas com a educação física do jovem.

22. Nós exigimos a abolição do exército regular e a criação de um exército nacional (popular).

23. Nós exigimos que haja uma campanha legal contra aqueles que propaguem mentiras políticas deliberadas e disseminem-nas através da imprensa. A fim de tornar possível a criação de uma imprensa alemã, nós exigimos:

(a) Todos os editores e seus assistentes em jornais publicados na língua alemã deverão ser cidadãos alemães.

(b) Jornais não-alemães deverão somente ser publicados com a permissão expressa do Estado. Eles não deverão ser publicados na língua alemã.

(c) Todos os interesses financeiros em, ou de qualquer forma afetando jornais alemães serão proibidos a não-alemães por lei, e nós exigimos que a punição por transgredir esta lei seja a imediata supressão do jornal e a expulsão dos não-alemães do Reich.

Jornais que transgridam o bem-estar comum serão suprimidos. Nós exigimos ação legal contra aquelas tendências na arte e literatura que tenham influência ruidosa sobre a vida do nosso povo, e que quaisquer organizações que atentem contra as exigências agora mencionadas sejam dissolvidas.

24. Nós exigimos liberdade para todos os credos religiosos no Estado, à medida que eles não coloquem em risco a existência ou ofendam a moral e senso ético da raça germânica.

O Partido como tal representa o ponto-de-vista de um cristianismo positivo sem ligar-se a qualquer credo particular. Ele luta contra o espírito judaico materialista internamente e externamente, e está convencido de que uma recuperação duradoura do nosso povo só pode vir de dentro, sob o princípio:

BEM COMUM ANTES DO BEM INDIVIDUAL

25. A fim de executar este programa, nós exigimos: a criação de uma autoridade central forte no Estado, a autoridade incondicional pelo parlamento político central de todo o Estado e todas as suas organizações.

A formação de comitês profissionais e de comitês representando os vários estados do país, para assegurar que as leis promulgadas pela autoridade central sejam executadas pelos estados federais.

Os líderes do partido assumem a responsabilidade de promover a execução dos pontos agora mencionados a todo custo, se necessário com o sacrifício de suas próprias vidas.
A evidente relação entre os programas é tão clara quanto água cristalina. Em ambos os programas vemos a obrigatoriedade do trabalho para todos, a expropriação da propriedade privada dos meios de produção e sua transferência para o Estado, a primazia do coletivo sobre o individual, a categorização coletiva de indivíduos, educação pública e gratuita sob a égide do Estado, dentre outras coisas. Os mesmos traços podem ser vistos no documento “Il Manifesto dei Fasci Italiani di Combattimento”, o manifesto fascista. Para além dessa evidência explícita, é necessário dizer que os grandes nomes do nazifascismo – Adolf Hitler, Joseph Goebbels, Benito Mussolino et caterva – possuíam formação política marxista. O próprio termo Nacional-Socialismo não é, ao contrário do que advoga o Sr. XR, “praticamente uma contradição”, uma vez que o Socialismo não é exclusivamente internacionalista.


Além das convergências programáticas, há que se apontar para questões de ordem factual. A despeito do suposto caráter exclusivamente internacionalista das ideologias socialista e comunista, a prática mostrou não apenas características nacionalistas, mas também raciais. A partir de 1917, com o êxito da Revolução Bolchevique, o governo revolucionário russo iniciou uma perseguição sistemática contra os cossacos – não por motivos sociais ou políticos, mas por motivos étnicos. Entre 1917 e 1921, cerca de 300 mil cossacos foram mortos pelo governo, e outros 300 mil, deportados (vide Shane O'Rourke, “The Cossacks”). E essa foi apenas uma das medidas de limpeza étnica promovidas pelo governo soviético: sob o comando de Stálin, a URSS perseguiu sistematicamente as populações nativas do Cáucaso (karachays, karapapaks, tártaros, meskhetis, cazaques, inguches, chechenos, etc.), forçando-as a um processo de russialização através de prisões, deportações e execuções – o que foi, aliás, um dos motivos pelos quais boa parte desses povos uniu-se aos alemães quando da invasão nazista à URSS, havendo a formação de milícias regionais que foram integradas à Waffen-SS. O governo soviético também perseguiu colonos estrangeiros em seu território (como os alemães da região do Volga, os gregos da Criméia e os coreanos do extremo-leste russo), bem como povos de territórios invadidos – poloneses, romenos, ucranianos (o Holodomor provocou a morte de 5 milhões de ucranianos no inverno de 1932-1933), letões, lituanos e estonianos (Otto Pohl, “Ethnic Cleansing in the USSR, 1937–1949”). Recomendo a leitura das obras de Richard Pipes, um dos maiores especialistas em história russa do século XX, sobre as políticas raciais do governo soviético.

Essas políticas de perseguição a povos e raças considerados inferiores não foi um privilégio do Nazismo ou do Comunismo advindo de uma suposta deturpação do Marxismo. O ideário de Karl Marx e Friedrich Engels esteve, desde o começo, imbuído de uma concepção racial bastante clara (grifos nossos):
Não vamos buscar o mistério do judeu em sua religião, mas, ao contrário, buscamos o mistério da religião no judeu real.

Qual é o fundamento secular do judaísmo? A necessidade prática, o interesse egoísta.

Qual é o culto secular praticado pelo judeu? A usura. Qual o seu Deus secular? O dinheiro.

Pois bem, a emancipação da usura e do dinheiro, isto é, do judaísmo prático, real, seria a auto-emancipação de nossa época.

Uma organização social que acabasse com as premissas da usura e, portanto, com a possibilidade desta, tornaria impossível o judeu.
Sua consciência religiosa se desanuviaria como um vapor turvo que pairava na atmosfera real da sociedade. Por outro lado, ao reconhecer como nula esta sua essência prática e ao trabalhar pela sua anulação, o judeu está-se empenhamo-lo, com o amparo de seu desenvolvimento anterior, pela emancipação humana pura e simples e manifestando-se contra a suprema expressão prática da auto-alienação humana. (Karl Marx, “A Questão Judaica”, 1843)

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A sociedade está passando por uma revolução silenciosa, à qual deve se submeter, e que não presta mais atenção às existências humanas que solapa do que um terremoto se importa com a casa que faz desmoronar. As classes e as raças fracas demais para dominar as novas condições de vida devem perecer. (Karl Marx, New-York Daily Tribune, 4 de março de 1853)

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Quanto aos judeus, que desde a emancipação de seu secto meteram-se em todos os lugares, ao menos nas pessoas de seus eminentes representantes, à frente da contra-revolução – o que os espera?

Não se pode esperar pela vitória para atirá-los de volta ao seu gueto. (Karl Marx, Die Neue Reinische Zeitung, n.º 145, 17 de novembro de 1848)

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Agora, uma palavra sobre “união fraternal universal dos povos” e a marcação de “fronteiras estabelecidas pela vontade soberana dos próprios povos com base em suas características nacionais”. Os Estados Unidos e o México são duas repúblicas, em ambas das quais o povo é soberano.

Como aconteceu de estourar no Texas uma Guerra entre essas duas repúblicas, as quais, de acordo com a teoria moral, deveriam estar “fraternalmente unidas” e “federadas”, e que, devido a “necessidades geográficas, comerciais e estratégicas”, a “vontade soberana” do povo americano, apoiada pela bravura de voluntários americanos, mudou as fronteiras marcadas pela natureza algumas centenas de milhas ao sul? E irá Bakunin acusar os americanos de uma “guerra de conquista”, que, apesar de atacar diretamente sua teoria baseada em “justiça e humanidade”, foi, entretanto, realizada única e exclusivamente no interesse da civilização? Ou talvez seja um infortúnio que a esplêndida Califórnia tenha sido tomada dos preguiçosos mexicanos, que não podiam fazer nada com ela? Que os enérgicos yankees, pela rápida exploração das minas de ouro californianas, aumentarão os meios de circulação, concentrarão em poucos anos uma densa população e um comércio extenso nos melhores lugares da costa do Oceano Pacífico, criarão grandes cidades, abrirão comunicações através de navegação a vapor, construirão uma ferrovia de Nova York a San Francisco, abrirão pela primeira vez o Oceano Pacífico à civilização, e pela terceira vez na história darão ao comércio mundial uma nova direção? A “independência” de uns poucos californianos hispânicos e texanos sofrerá por conta disso, e a “justiça” e outros princípios morais poderão ser violados; mas o que isso importa frente a fatos de tamanho significado na história mundial?

Gostaríamos de apontar, incidentalmente, que essa teoria de união fraternal universal dos povos, que urge indiscriminadamente por união fraternal independente da situação histórica e do estágio do desenvolvimento social individual dos povos, foi combatida pelos editores do Neue Reinische Zeitung muito antes da revolução [de 1848], e, de fato, em oposição a seus melhores amigos, os democratas ingleses e franceses. Prova disso pode ser encontrada nos jornais democráticos ingleses, franceses e belgas daquele período.

[...]

Às frases sentimentais sobre irmandade que têm sido oferecidas aqui em nome das nações mais contra-revolucionárias da Europa, respondemos que o ódio aos russos era e ainda é a primeira paixão revolucionária dentre os alemães; que o ódio revolucionário a checos e croatas foi adicionado a ela, e que apenas através do mais determinado uso do terror contra esses povos eslavos, juntamente com poloneses e magiares, podemos salvaguardar a revolução. [...] Então haverá uma luta, uma “inexorável luta de vida e morte”, contra aqueles eslavos que traem a revolução; uma luta aniquiladora e um terror cruel – não pelos interesses da Alemanha, mas pelos interesses da revolução! (Friedrich Engels, Die Neue Reinische Zeitung, n.º 222, 14 de fevereiro de 1849)
Está apenas presente o ódio classista no próprio bojo do Marxismo: o ódio nacional e o ódio racial estão aí, claro, transparentes, aberrantemente claros. Esses três ódios estão presentes de modo inequívoco tanto no Socialismo e no Comunismo quanto no Fascismo e no Nazismo, não apenas em seus aspectos factuais, concretos, mas igualmente em seus âmbitos teórico-doutrinários. Ao contrário de serem ideologias antagônicas, são, a despeito de suas particularidades e mínimas incongruências mútuas, irmãs gêmeas gestadas no mesmo útero, o Marxismo, quod erat demonstrandum.

Para além de todas essas evidências inequívocas, há certos aspectos da realidade histórica que o Sr. XR omitiu em seus textos, talvez por desconhecimento. É importante, no entanto, lançar luzes sobre alguns aspectos curiosos da conquista do poder na Alemanha por Adolf Hitler:
  • A maciça eleição do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães deu-se, em grande medida, por ter havido um grande racha entre comunistas e social-democratas alemães. Essa divisão política ocorreu por orientação do Partido Comunista soviético.
  • Nos primeiros anos do governo Hitler, quando este já era tratado como o Führer, foi assinado o Pacto Molotov-Ribbentrop (ou Pacto de Não-Agressão), em que a União Soviética e a Alemanha estabeleciam uma aliança política, militar e econômica. A URSS desempenhou um papel importantíssimo na construção na máquina de guerra da Alemanha nazista, não apenas no quesito econômico, mas no aspecto militar também;
  • A NKVD, polícia secreta soviética, foi responsável pelo treinamento da Gestapo;
  • O governo soviético importou seu modelo de campos de concentração para a Alemanha nesse mesmo período, oferecendo know-how e auxílios técnicos ao governo alemão para a implementação dos campos;
  • A concretização do Pacto Molotov-Ribbentrop foi a invasão da Polônia, orquestrada simultaneamente por nazistas e soviéticos. É desse período que data o massacre de Katýn, em que mais de 20 mil poloneses foram executados pela NKVD.

Cerimônia de assinatura do Pacto de Não-Agressão.
Socialismo, Comunismo, Nazismo e Fascismo são a mesma coisa? Evidentemente, não. No entanto, essas ideologias possuem características essenciais semelhantes? Sim. Além disso, essas ideologias possuem a mesma raiz, qual seja, o Marxismo? Sim. A velha cantilena de que os grandes líderes comunistas – Lenin, Stálin, Castro, Mao, dentre outros – não eram verdadeiros marxistas é bem gasta, normalmente utilizada por aqueles que insistem em mutilar a realidade para dar validade à teoria, e dificilmente se sustenta diante das evidências históricas. “Contra factum argumentum non est”, já ensinava São Tomás de Aquino.

6 comentários:

  1. Olá Felipe...

    Obrigado pela atenção, e indireta admissão de que ainda não conhecia devidamente os textos que, anteriormente, se apressou em descartar como previamente refutados.

    Analisando seu post, vejo que foi cauteloso e esforçado, trazendo bem vindas contribuições ao tema. Não obstante, parece que no essencial concordamos, pois você concluiu com: “Socialismo, Comunismo, Nazismo e Fascismo são a mesma coisa? Evidentemente, não. No entanto, essas ideologias possuem características essenciais semelhantes? Sim.”

    E eu iniciei meu texto com: ”...evidente que Nazismo e Fascismo, e Comunismo e Socialismo, têm coisas em comum, mas diferenças suficientes para desmantelar qualquer tentativa de igualá-los.”

    Ou seja, parece que você terminou onde eu comecei.

    Dito isso, aponto a ênfase demasiada em destacar pormenores baseados em evidências pontuais, método que pode degenerar para o mau hábito de insistir no detalhe invés de enfocar o todo. (Vício que Olavo de Carvalho, infelizmente, apresenta regularmente.)

    Em obras tão vastas quanto a de Marx, envolvendo miríades de publicações de teor distinto, pode-se achar praticamente qualquer coisa, mas o que deveria merecer maior atenção é a harmonia mais ampla do sistema. Além disso, temo que você tenha levado o termo genérico “luta” numa especificidade imprudente. Os sindicatos falam de luta o tempo todo, mas não planejam guerras por causa disto.

    Para mostrar o quanto essa insistência se revela infrutífera, tomemos a teoria marxista em seu mais amplo aspecto. Marx fala da transição de modos históricos de produção e da luta de classes. Mas quais foram as guerras que implementaram o Escravismo, o Feudalismo ou o Capitalismo?

    Ele também dá grande ênfase a revolução burguesa. Mas quais foram as grandes investidas militares que a colocaram em evidência?

    Da mesma forma como a transição entre esses modos de produção eram resultantes de forças históricas vastas, o mesmo se daria com a ascensão do Socialismo e Comunismo. É claro que nesse processo estão previstas escaramuças e conflitos isolados, mas pelo ponto de vista marxista a revolução proletária jamais poderia ser uma guerra ostensiva, até porque quem poderia lutar nela? Proletários contra proletários? Os exércitos de cada nação se voltariam contra seus próprios trabalhadores?

    Assim, apesar de ter elencado citações válidas e sugerido pontos relevantes, não vejo porque tal enfoque de similaridades deporia contra a idéia central que ambos concordamos. Sem contar inúmeros outros pontos relevantes de meu texto que não foram comentados.

    Por fim, sua outra conclusão: “Além disso, essas ideologias possuem a mesma raiz, qual seja, o Marxismo? Sim.”

    Aí a situação complica. É até defensável, mas mesmo que fosse (deixando de lado possíveis maus usos do termo “radical”) isso não supera suas diferenças inconciliáveis.
    Simbolicamente, Gabriel e Lúcifer surgiram da mesma raiz divina, e nem por isso deixam de ser opostos.

    Podemos dizer, penso que inequivocamente, que são todos filhos do Hegelianismo, mas o grau de parentesco do Marxismo com as doutrinas que inspiraram Mussolini e Hitler, no mínimo oscila entre “irmãos” “primos” ou até mesmo “sobrinhos”. E isso sem falar nos pensadores nippônicos, como Motoori Norinaga e Atsutane Hirata, que fomentaram o fascismo japonês antes de Marx ter nascido.

    Portanto, apesar das inegáveis intersecções, boa parte deles resultantes do mero contexto, essas linhas ideológicas se diferenciam não somente em suas bases teóricas como em seus resultados, embora pouco me importe quem matou mais ou foi mais opressivo.

    Pode ser útil para o anti-esquerdismo colocar todos sob o mesmo rótulo, bem como indiferenciar Marx, Lênin, Stalin, Mao, Pol-Pot e Cia. Afinal, Falácia do Espantalho e Síndrome do Mesma Coisa servem exatamente para isso.

    Mas cortar fora diferenças essenciais também é mutilação da realidade, e acho que você é inteligente demais para se satisfazer com isso.

    Amigavelmente

    Marcus Valerio XR
    xr.pro.br

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  2. Adendo.

    Esqueci de comentar que a questão central, da distinção entre as ideologias, acabou obscurecida pela questão secundária do Marxismo pregar a luta armada ou não, que foi, enfim, a tese verdadeiramente atacada.

    Mas são questões distintas, que mereceriam tratamento separado, e mesmo a validação de uma não implicaria na validação de outra, e vice versa.

    Ps: Pode dispensar o "Sr.", XR está de bom tamanho.

    Marcus Valerio XR
    xr.pro.br

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  3. Prezado Sr. Felipe Melo. Foi com satisfação que li seu artigo. Pode parecer novo nessas bandas de cá, aqui no Brasil, pois o país, escolas, universidades e livros, estão todos contaminados pelo vírus marxista. Mas lá fora, isso não é novidade. Aliás, um economista austríaco, Hayek, vencedor do prêmio Nobel em sua área, em 1974, já seguia essa linha de pensamento, que podemos ler com clareza no livro "O caminho para a servidão" (e ali ele desnuda sem rodeios o fascismo, o nazismo e o comunismo). Infelizmente, esse livro importante nem é levado em conta pelas nossas faculdades e professores. No fundo, no fundo, penso mesmo que, ao final, tudo isso se reduz ao que Aristóteles (outro grande sábio, ao qual é dada pouca atenção em nossas faculdades), na "Política" chamava de tirania e demagogos.
    Desejo que o senhor continue nesse caminho, e que, um dia, nossos professores, nas faculdades e nas escolas, tenham a honestidade e coragem de expor os fatos como realmente são, as teorias com todas as suas refutações, sem precisar fazer o papel de meros papagaios, sem se deixarem levar por modismos nem por programas impostos por tiranetes de plantão.
    Abraços,
    Augusto

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  4. Não precisava colocar a foto da criatura. Ele errou mas tem o mínimo de orgulho saudável(ou de má caratisse) para alegar que vocês concordam, heheh.

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  5. "embora pouco me importe quem matou mais ou foi mais opressivo."

    É interessante como os humanistas e libertários de esquerda sempre deixam de lado esse "pequeno" detalhe.

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    1. Porque a questão aqui é a diferença essencial entre os sistemas ideológicos, para a qual tais fatores é irrelevante, conforme o contexto do texto deixa claro.

      É interessante essa mania de pinçar frases isoladas e extrapolá-las ao invés de avaliar o todo.

      Eu me importo sim com a opressão e o genocídio, inclusive com aquele sistemático, constante e negligenciado que ocorre aos poucos em regimes que arrastam maus hábitos milenares, que depois se lamentam de terem precipitado revoluções populares que devolvem em poucos anos, com altos juros, tudo o recebeu em séculos.

      Marcus Valerio XR
      www.xr.pro.br

      Obs: Por que a opção de postagem "Nome/URL", que era a que eu usava, foi removida?

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